sexta-feira, maio 19, 2006

FRAGMENTOS: Cartografia e observação de campo

[obs. rascunho para texto de trabalho da oficina]


Cartografia e observação de campo
metodologia do sub-projeto

[Considerações sobre a metodologia do projeto Pibic]

Apresentação
Na base do conjunto de práticas que costumamos referir como “método científico”, um dos elementos mais fundamentais, sem sombra de dúvida, é o recurso à observação. Via de regra, todo cientista observa fenômenos que considera ainda mal compreendidos e tenta estabelecer descrições mais nítidas e explicações mais adequadas para os problemas associados ao fenômeno eleito.

O termo observação costuma nos remeter diretamente ao campo da visualidade; dizemos, com efeito, que só se pode observar aquilo que possa ser visto (mais ou menos como quando dizemos que “é preciso ver para crer”). Podemos sem medo afirmar que toda a “ciência canônica” – aquela que respeita os pressupostos clássicos da metodologia – tem como princípio que se pode (e deve) aceitar a verdade, na medida em que ela se torne evidente, ou seja, visível ao observador.

Além disso, talvez seja interessante chamar a atenção também para o fato de que o cientista e o pesquisador são agentes especializados de uma prática que, em maior ou menor grau, é um hábito bastante disseminado em nossa cultura. Todos nos consideramos observadores[1], e como observadores costumamos ter considerações e críticas a tudo de relevante que conseguimos perceber.

A “observação pura”, contudo, deve ser distinguida da “interação”. Observar algo não é a mesma coisa que interagir com esse algo, embora se possa dizer que tanto por uma abordagem quanto pela outra é possível a um sujeito qualquer formar conhecimento a respeito de um fenômeno, ou dos problemas considerados a seu respeito. E, da mesma forma, tanto a “observação pura” (Descartes) quanto a “observação interativa” (ou “participante”, cf. Malinowski, XXX) diferem em relação à observação “cartográfica” (ROLNIK, XXX), ou seja, aquela que considera não apenas os dados observados ou a relação entre o sujeito e o conhecimento que se forma em sua observação, mas que também busca “desconstruir” (SANTIAGO et al., 1976, p. ) o objeto do conhecimento, aplicando sobre ele o questionamento sobre a sua natureza e sobre os marcadores utilizados para defini-la.

De forma geral, podemos dizer que existem pelo menos três “universos de referência” para o processo de observação, referentes ao objeto geral das ciências naturais, biológicas e exatas. Assim, aceitamos que aprendemos – os cientistas aprendem – a observar a partir dos modelos utilizados para observar fenômenos da natureza, da vida e da matemática, e tentamos aplicar esses pontos de partida a situações de observação dos outros objetos de conhecimento sobre os quais venhamos a nos debruçar, como as ciências sociais e humanas. Confortáveis na situação de ciências compatíveis com uma lógica e com uma representação baseada na visão, a física e a biologia forneceram as metáforas básicas para que se pudessem desenvolver modelos de observação em outros campos desejosos de produzir conhecimento, embora tenha sempre ficado mais ou menos clara a necessidade de se corrigir essa aproximação pois as ciências definidoras do método científico canônico observam objetos que manifestam naturezas distintas, de uma constituição objetiva que se pode opor a uma constituição subjetiva.

Indo direto ao ponto, poderemos ilustrar essa distinção invocando exemplos dos próprios campos de produção de conhecimento. No caso da física, por exemplo, a “representação mundana” ou “senso comum” costuma recorrer à imagem de um observador que direciona seu olhar para aquilo que acontece com os elementos que constituem o nosso universo material. Uma vez reconhecida a existência de um fenômeno, busca-se pela observação perceber suas propriedades (também chamadas “atributos” ou “dados”), manifestada de forma livre, experimental ou controlada. Em todo caso, o procedimento acaba sendo mais ou menos o mesmo: o que se vê, se analisa e se descreve; o que se descreve representa o fenômeno questionado e, segundo a validade atribuída a essa representação, atesta-se a observação realizada como correspondente à verdade do fenômeno.

Uma das grandes funções da observação, na física, é determinar conjuntos de regularidades entre as diversas manifestações dos fenômenos, chamados genericamente “leis”. Como essas leis dizem respeito aos elementos que sempre compuseram o universo, sua vigência é dada como permanente ou imutável: esperamos que a luz sempre seja refletida em superfícies polidas, que os objetos caiam respeitando a mesma aceleração, que o peso de um objeto permaneça inalterado em aferições sucessivas. Na física (clássica, canônica, mecânica), o que foi ontem provavelmente continuará sendo hoje e amanhã.

Nas ciências biológicas, a base da organização do conhecimento – e por extensão, das observações realizadas – é aparentemente inversa à da física: mais que procurar regularidades ou os fatores que permitem a sua ocorrência, importa compreender a mudanças ocorridas de tempos em tempos entre os membros de uma mesma espécie de organismos. É na idéia de “evolução” consolidada como teoria por Darwin que se cristalizou a imagem do trabalho dos biólogos, e evolução aqui significa grosso modo uma diferença entre a forma de dois membros de uma classe, no decurso de seus ciclos de reprodução. Aqui, o cientista observa ao menos duas formas para tentar estabelecer como uma evoluiu até a outra: ou seja, a partir de duas observações “diretas”, pretende o evolucionista encontrar um elemento “indireto” – a explicação para as alterações formais entre os espécimes considerados. Note-se que a biologia não refuta a física, mas reposiciona a observação para alcançar uma outra especificidade.

Por fim, no campo das ciências exatas, ou da matemática, a observação, a análise e a descrição se ocupam de fenômenos que, estando objetivamente nas coisas “naturais” e “vivas”, ajudam o pensamento do observador a estabelecer cálculos a respeito dessa ocorrência. Para usar uma pseudo-etimologia, poderíamos dizer que é matemático “tudo aquilo com o que se pode contar” – e que portanto se deve saber o que é[2]. A observação das “entidades matemáticas” implica exatamente ultrapassar o nível sensível e individual das manifestações empíricas dos fenômenos, para buscar atingir o nível inteligível que desponta nesses fenômenos. Quando observamos como matemáticos, passamos a lidar com as transformações entre as regularidades produzidas pelos fenômenos físicos e as diferenças provocadas pela ação (lato sensu) dos seres vivos.

[1] O quanto podemos associar termos como “observação”, “consciência” e “aprendizagem” (“Será que aprendo ou tomo consciência de tudo o que observo?”) é uma questão para ser tratada em outro tópico.
[2] Afinal, como usar algo que não se sabe o que é?